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Sunday, March 25, 2012

Peter Pan de Saia


Madonna Louise Ciccone, 53 anos. Grande mulher de negócios. Ela é "a" artista pop. No topo há anos, se reinventa de tempos em tempos. Balela, não? Isso todo mundo sabe. E bom, ela não quer perder o bonde. Pra isso, mais uma vez, Madonna recrutou um batalhão de produtores pro seu disco lançado essa semana, MDNA. Olhando na ficha técnica do álbum, são 12. Se contar todo mundo envolvido de alguma maneira nesse disco (músicos, arranjadores, compositores, cantores, engenheiros de som), são perto de 120 nos créditos (!). E até pra um observador superficial, fica fácil perceber que não existe a "assinatura" Madonna no seu som - fora o timbre vocal - e até aí, é absolutamente normal. A música é o que o cara que apertar os botões da mesa do estúdio definir, mas claro que ela tem controle absoluto sobre tudo. Sabe quem quer atingir, e como fazer pra tudo dar certo. Sempre foi assim, ela sempre se cercou do melhor em sua época: Nile Rodgers em Like A Virgin, Babyface em Bedtime Stories, Stuart Price em Confessions on a Dance Floor, Timbaland e The Neptunes em Hard Candy... a nata. É justo dizer também que gente nova e talentosa sempre tem lugar nas suas produções. Pra mim, o francês Mirwais Ahmadzaï (Music e American Life) é sua melhor descoberta. Então, em MDNA, o time de produtores reflete sintomaticamente o que é o disco: dance-pop urgente e volátil, exatamente como a obra do pessoal envolvido no projeto. Não tem um tiquinho de audácia, de novidade... talvez a coisa mais ousada no disco foi ter chamado uma faixa de "I Fucked Up", o que deve ter garantido o carimbo de "Parental Advisory" na capa. OK, eu não esperava uma obra conceitual, uma aventura à la Björk, mas inventar um grito de guerra de cheerleaders e transformar isso em refrão como o do primeiro single "Give Me All Your Luvin'" (que ainda tem um trecho rapeado com toda a verborragia histérica de Nicki Minaj) ou não conseguir pensar em nada melhor do que "Ooh la la you're my superstar / Ooh la la love the way that you are" ("Superstar") é preocupante numa arte que depende demais desse trecho ganchudo da canção. Na segunda faixa escolhida como single, "Girl Gone Wild" (com sample de um trecho falado da letra de "Act of Contrition" de Like A Prayer) fica claro que o italiano Benny Benassi se intimidou ante Madonna e colocou terno e gravata num electro-house convencional que lembra muito o single "Get Together" de 2006. Em "I'm Addicted", Benassi arrisca um pouco mais nas timbragens ácidas dos synths e em "Best Friend" se dá melhor ainda com as baixas frequências num R&B modernoso. Já o francês Martin Solveig fez de "Turn Up The Radio" exatamente o que se esperava: o mesmo eurodance chiclete de seu trabalho autoral. Não que eurodance seja ruim, já que na boa "Beautiful Killer" ele acerta a mão com uma guitarrinha pegajosa e um arranjo sintético de cordas muito bem feito. É uma das melhores do disco (e só está nas bonus tracks da versão Deluxe). Quem não chega a comprometer é o veterano William Orbit, que participa em metade das faixas. Com sua finesse folk-eletrônica ele refina canções como "Love Spent" e "Falling Free" com detalhes acústicos e andamentos inusuais. E para os fãs mais xiitas, temo que a balada "Masterpiece" (composta para o filme W.E., dirigido por Madonna) seja uma das poucas absolvições frente aos muitos pecados de MDNA. Depois de ouvir o disco, fiquei pensando que não tenho certeza sobre qual meu álbum favorito de Madonna. Talvez Bedtime Stories, talvez Confessions on a Dance Floor. Mas o que menos gosto eu já sei qual é.

"Give Me All Your Luvin'": imagina acordar com a Nicki Minaj gritando no seu ouvido.

Sunday, August 1, 2010

Solidão Que Nada

Procurando alguma trilha pro seu ritual de acasalamento nesses dias invernais? Há uma boa chance disso aqui funcionar. Depois de dois EPs, You Are Found é o primeiro disco da cantora e compositora Erin Lang. Apadrinhada por Roger O'Donnell (ex-tecladista do Cure), a canadense explora o filão do pop acústico com toques leves e precisos de eletrônica, algo que pode ser definido como electrofolk. A voz de Erin é tão delicada e etérea que seus sussurros vão ficando quase inaudíveis e por pouco não somem por completo em faixas como "Lightning". Ás vezes ela canta como se fosse seu último suspiro em faixas lânguidas como "Empty" (amparada por um cello no refrão) ou "Daisy" e sua guitarra monocórdica. Produzido pelo alemão Mario Thaler (que já trabalhou com o Lali Puna) e lançado em Maio deste ano, You Are Found tem alguns momentos criativamente forrados com ruídos, cliques e estalos digitais ritmicamente organizados - o que o aproxima da estética glitch - especialmente em "A Thousand Years" e "Until Then", e ainda algumas amostras de pop doce e ensolarado como "Now" e a perfeita "You're Better Off", já bem colocada no meu ranking de mais ouvidas do ano. Ouça de boca fechada.

Nota: 8
Pra quem gosta de: Badly Drawn Boy, Beth Orton, Ellie Goulding
Links: site oficial, Facebook, Youtube

"You're Better Off":

Thursday, July 8, 2010

Os Diamantes São Eternos

Metade do ano se foi e sem medo de errar, aqui está o melhor disco pop de 2010 até agora: "The Family Jewels", de Marina & The Diamonds. A galesa de ascendência grega Marina Lambrini Diamandis mais um time de produtores que incluem nomes do quilate de Pascal Gabriel e Liam Howe produziram um disco inteirinho de canções cantaroláveis e divertido do início ao fim. O álbum tem uma sequência inicial matadora com alguns dos refrãos mais ganchudos da temporada: a sensacional música de abertura "Are You Satisfied?" (um bem tramado mix de música de câmara, metal farofa e new wave), "Shampain" e sua batida direcionada aos quadris e o irretocável single "I Am Not A Robot". Tiquinhos de ousadia e esquisitice aparecem vez ou outra, caso das belas cordas de "Girls" e sua melodia que parece extraída de alguma canção do repertório particular de Jack Sparrow e seus comparsas. As firulas vocais da também tecladista e pianista Marina Diamandis estão espalhadas por quase todas as faixas, mas não incomodam de jeito nenhum - embora ela se esforce para fazer com que você pule "Hermit The Frog", a levada contagiante do refrão acaba por compensar os eventuais exageros. Marina, além de admiravelmente bonita e do porte físico formidável, canta muito, muito bem. Ela tem um timbre lindo (lembra a versatilidade de uma Kate Bush) e nas faixas não há resquício de qualquer maquiagem vocal irritante como o onipresente Auto-Tune, por exemplo. Fora que com parcos 24 anos ela ainda mixou, tocou e compôs todas as faixas de "The Family Jewels". Lançado dia 22 de Fevereiro, o disco é ouro na Inglaterra (mais de cem mil cópias vendidas), rendeu três singles e tem mais um agendado ("Oh No!", para 02 de Agosto); é acessível e sem apelar para as fórmulas mais óbvias do pop, se desvencilhou fácil de nomes como Little Boots e La Roux - ou ainda daquelas que chegaram para deixar as coisas exatamente no marasmo que estão, vide a acefalia das Ke$has da vida.

Nota: 8
Pra quem gosta de: Florence + The Machine, The Ting Tings, disco music, Nelly Furtado
Links: site oficial, MySpace, twitter, Facebook

"I Am Not A Robot":



Thursday, February 4, 2010

Monozigóticas



Se eu te recomendasse um álbum de uma dupla de cantoras chamada The Watson Twins, qual seria sua reação? Resposta provável: desconfiança. E depois de olhar uma foto das duas, então? Sem ouvir o suposto álbum, dava pra chutar que se trata de uma dupla country dos cafundós das florestas do Kentucky. Bom, Chandra e Leigh Watson nasceram em Louisville, Kentucky. São realmente gêmeas idênticas (como evidencia o nome) e dando uma olhada nas fotos, dá a impressão que elas saíram de um filme de David Lynch. Já se chamaram Black Swan, mas mudaram a partir de seu álbum de estréia ("Southern Manners", de 2006). Alguém tratou de rotular o som das moças de alt country, então teoricamente elas dividiriam a prateleira de CDs com nomes cultuados do country alternativo como Ryan Adams, Calexico e Wilco.



O álbum "Talking To You, Talking To Me" sai agora em Fevereiro, e pode acabar com a sua desconfiança, principalmente porque o disco vai quilômetros além do country/folk. Em "Modern Man", a faixa de abertura, já dá pra começar a entender porque: caixa e chimbal acelerados, baixo com vida própria e vocais que vão da sutileza à potência em menos de 5 segundos. A sequência com "Harpeth River" tem andamento cadenciado de bateria e é carregada de uma dramaticidade que pode agradar em cheio os fãs do trip-hop de bandas como Portishead e Sneaker Pimps. O clima de bar escuro e enfumaçado continua com a encantadora sutileza jazzística de "Forever Me" e o blues "Midnight", com seus dois arrepiantes minutos de solo de órgão Hammond B3 (que aparece memoravelmente também em "Devil In You"). Elas ainda cantam como um girl group sessentista no pop docinho de "Tell Me Why" ou como se fossem uma versão feminina de Roy Orbison em "U-N-Me". Para produzir "Talking To You, Talking To Me", as gêmeas juntaram-se a Russell Pollard e Soda J. da banda californiana Everest e depois de se isolar em uma cabana em Sierra Nevada por quatro dias em Junho de 2009, finalizaram as demos que viriam a ser gravadas na Fairfax Recordings de Los Angeles, na mesma mesa de mixagem de "The Wall" do Pink Floyd. As referências são boas, a música é ótima, então estamos diante de uma das promessas do ano, ou o quê?

Ouça "Modern Man" aqui no player:

Monday, September 7, 2009

All She Wants Is

Não, não se trata da tentativa house do Duran Duran de 1988, é Natalie Imbruglia que está com single novo prontinho: “Want” está programado para 28 de Setembro, e claro que já vazou. A faixa foi escrita por Natalie, o produtor escocês Gary Clark (que tem no currículo trabalhos com gente como Skye Edwards do Morcheeba e Melanie C das Spice Girls), Chris Martin (Coldplay) e o ex-marido Daniel Johns, do Silverchair. A produção é do inglês Ben Hillier, que girou alguns botões em discos do Blur, Doves, Elbow e nos dois últimos do Depeche Mode. E a australiana tem balançado a franja recentemente em festivais europeus para promover o single e também o novo álbum, “Come To Life”, que deve sair em Outubro. Mas vem cá, “Want” presta? Ô se presta. Tudo bem que não deve repetir as mais de três milhões de cópias vendidas de seu single mais famoso (“Torn”, de 1997), mas é uma ótima canção pop, de refrão fácil, instrumental OK e Natalie cantando direitinho. E a versão Promo do single explora bem o potencial dançante da música com remixes muito bons (duas reconstruções da dupla inglesa Shapeshifters entre eles). Fora que aos 34 anos, Natalie Imbruglia está mais bonita do que nunca. Perdeu, Daniel.

Admito que não foi fácil prestar atenção somente na performance vocal de Natalie Imbruglia: