Até me animei quando ouvi uns dias atrás "A Deeper Dub", faixa do EP de mesmo nome que precede o quinto álbum do Apollo 440, The Future's What It Used to Be. Infelizmente o álbum não bateu. Aquela banda do bom disco Electro Glide in Blue (1997) e do fantástico single "Ain't Talkin' 'bout Dub" - que fundiu de forma excepcional "Ain't Talkin' 'bout Love" do Van Halen com drum'n'bass - hoje se resume a um electro-rock sem brilho, desses que você encontra em qualquer Pendulum por aí. Ou seja, é mais um sub-Prodigy.
Daqui a pouco é verão no Hemisfério Sul. Três meses de bermudas, biquinis, praia, sol e Ivete Sangalo. Putz, Ivete Sangalo? Há mais de dez anos que a cantora toma conta do campinho nessa época aqui no Brasil, existe distância segura para se proteger desse furacão baiano? Não, não tem. Mas eu não preciso ser cúmplice. Aliás, alguns lançamentos recentes também não se encaixam a algo próximo de um verão perfeito, musicalmente falando. Ei-los:
Artista: Ladytron
O quarteto de Liverpool soltou em Setembro seu quinto álbum, Gravity The Seducer. O synthpop épico tramado pela banda no disco tem várias camadas de gelo... digo, de sintetizadores com timbres mal-humorados (uma faixa chama-se sintomaticamente "Melting Ice", vai vendo) e alguns dos temas instrumentais mais populares na Groenlândia atualmente. Excessivamente melancólico, Gravity The Seducer não tem a menor chance de funcionar naquele seu surrado ghetto blaster na beira d'água.
Fator local: ouça o disco quando visitar Yakutsk, na Sibéria.
Fator de proteção sonar: 30 (médio).
"White Elephant": não, não é cor-de-rosa. É branco.
Artista: Zola Jesus
Apesar do nome, Nika Roza Danilova nasceu em Phoenix, Arizona. Conatus (lançado em Setembro) é o terceiro álbum da moça usando o alter ego Zola Jesus e traz 11 faixas de eletrônica experimental num cruzamento aproximado entre Joy Division e Siouxsie & The Banshees. O disco condensa rock gótico e synthpop, mas é o trabalho vocal inegavelmente bem feito de Danilova que mais chama atenção aqui - mesmo quando ela entoa um cântico ininteligível como em "Ixode". Seus trinados sinistros assustam na mesma medida que fascinam.
Fator local: bom de ouvir em São José dos Ausentes, nunca em Balneário Camboriú. Fator de proteção sonar: 60 (alto).
"Vessel": filtro verde-esmeralda. E frio.
Artista: Justice
O franceses Gaspard Augé e Xavier de Rosnay acabaram de lançar seu segundo e esperado álbum, Audio, Video, Disco. Tarefa ingrata depois da estréia absurda †(Cross fica mais fácil), do longínquo 2007. Passaram no teste? Sim e não. Ouvindo com carinho, o disco não chega a decepcionar. Tem aqueles timbres embolorados semelhantes aos encontráveis em singles (já) clássicos como "Waters of Nazareth" (em "Parade"), mas a diferença é que o Justice agora não engaveta a maior quantidade de distorção possível por metro quadrado como fazia há quatro anos atrás. O foco parece estar num electro-rock setentista/progressivo, cheio de guitarras e que pouco tem a ver com a pista de dança, bicho! O que deixou o som meio sem graça, é verdade.
Fator local: leve uma cópia na mochila na sua viagem para São Tomé das Letras. Fator de proteção sonar: 15 (baixo).
Sim, o título foi inspirado naquela canção dos Titãs - e não tive paciência pra procurar, mas provavelmente já o usei em algum outro post aqui do blog. De qualquer forma, cai bem pra esse novo álbum do The Rapture. Pois bem, pra quem algum dia acreditou que a colisão entre dance e punk poderia gerar mais do que cinco músicas legais, aí estão os São Franciscanos de origem (e nova-iorquinos por adoção) entregando In The Grace Of Your Love. Talvez eles próprios entrem nesse Top 5 com o single "House of Jealous Lovers" de 2002, mas basta uma audição de In The Grace para ter certeza de que aquele cowbell estridente duelando com um vocal pra lá de neurótico foi só um acidente feliz mesmo.
Primeiro ponto: a voz de Luke Jenner é insuportável. E ele se esforça, porque durante as 11 faixas, Luke esganiça, desafina, geme, chora e falseteia (ou tudo junto, como em "Blue Bird"), mas depois de quase uma hora dessas notas agudas semi-tonadas rebatendo nos tímpanos (experimente ouvir os últimos 40 segundos da faixa-título), dá vontade de correr pra qualquer coisa da Sade, porque tudo que se quer é alguém sussurrando macio no ouvido. E mesmo com o LCD Soundsystem pendurando as chuteiras, o Rapture continua acreditando que misturar Chic e Sex Pistols é pra qualquer um: basta jogar um acordeãozinho entre dedos estalando ("Come Back To Me"), pratos sibilantes disco ("Never Die Again") ou forrar a música com pianos house ("How Deep Is Your Love?", que graças à São Maurice Gibb, não é um cover do Bee Gees) que a fórmula dá certo. E depois de tudo isso, acrescente coisas inexplicáveis como a psicodelia chapada de "Roller Coaster", a deprimente faixa de encerramento "It Takes Time To Be A Man" e a clara sensação de que o álbum foi gravado num take só - do início ao fim - de tão tosco, preguiçoso, sem direção e mal-resolvido que é, e pronto: temos o pior disco de rock, ou dance (ou onde quer que for que o Rapture se encaixe atualmente) do mês, quiçá do ano. Bola fora, DFA.
"How Deep Is Your Love?": os Bee Gees remanescentes respiram aliviados.
Os nova-iorquinos Matt (vocais, teclados) & Kim (vocais, bateria) lançaram seu terceiro álbum (Sidewalks) em novembro do ano passado, e nele está a faixa a seguir. "Cameras" - o single - não passa de OK: beat de rap, vocais indie/desengonçados e sintetizadores farofa. Mas "Cameras" - o vídeo - é sensacional. A idéia é simples, mas a execução é primorosa: consiste basicamente na dupla indo pro tatame valendo-se do que tiver à mão pra arremessar contra o oponente. Não sei se usaram dublês pras pegadas mais realistas, mas mesmo assim eles já tem meu voto como "Casal Mais Cool do Pop".
A culpa é do ABBA. Desde que esses dois casais chegaram ao topo da parada inglesa pela primeira vez em Abril de 1974 com o single “Waterloo”, as coisas nunca mais foram as mesmas pro pop escandinavo. E não precisa pensar muito pra montar uma lista de artistas de sucesso que vieram de lá depois disso. Produtores/compositores dispostos a engrossar essas fileiras, Henrik Jonback, Henrik Korpi, Tommy Spaanheden e Peter Ågren montaram o The Amplifetes a pouco mais de um ano. Eles vem de trabalhos individuais com nomes que incluem Kelis, Madonna, Grandmaster Flash e Peter Bjorn and John. As experiências com nomes tão diversos refletem-se no projeto em conjunto, baseado em psicodelia sessentista, Elvis Costello, Ramones, David Bowie e house de Chicago - segundo a biografia da banda em seu site oficial. A banda deu sorte de ter seu primeiro single incluído numa campanha da grife do estilista italiano Roberto Cavalli, estrelada por Milla Jovovich. Por tabela, o electro garageiro “It’s My Life” acabou chamando a atenção para o som do grupo:
Vídeo da campanha de Roberto Cavalli:
Vídeo oficial de “It’s My Life”:
“Whizz Kid“, o segundo single também lançado em 2009 manteve a atenção da blogosfera no Amplifetes, até que em Maio desse ano eles se saíram com uma das grandes músicas de 2010: "Somebody New". A faixa é um Franz Ferdinand impulsionado por um motor synthpop sem vestígio de qualquer ranço retrô e que visualiza cada canto da pista de dança pra manter todos os pés na mais alta concentração de movimento por metro quadrado possível. Irretocável.
Vídeo oficial de “Somebody New”:
De quebra, de novo uma faixa da banda é escolhida como tema de uma campanha publicitária. Dessa vez, “Somebody New” aparece num anúncio da Garnier:
Finalmente, o debut saiu agora em Setembro. O álbum epônimo traz pela enésima vez uma música baseada em "I Feel Love" de Donna Summer (o improvável rockabilly eletrônico de "Fokker"), house em slow motion (os tecladinhos desacelerados em "When The Music Died" só podem ser de "Understand This Groove" do Sound Factory), e – sem trocadilhos - pop dançante de encher os olhos ("Blinded By The Moonlight"). Causa um certo desconforto passar pelas 12 faixas do disco ouvindo o vocal achatado de efeito do barbudo Peter Ågren, mas ás vezes isso é gol a favor e contribui pra aumentar a sensação de desolação – como na balada glacial “A Million Men”, ou pode tornar o clima ainda mais desencanado, como em “Somebody New”. Optar simplesmente por limar os vocais a favor de uma melodia assoviada (a bela instrumental “It Can’t Rain All The Time”) também alivia um pouco. Álbum lançado, marketing funcionando, tour planejada ainda pra 2010, e o Amplifetes merece ser enquadrado no clichê "eles tem um futuro promissor pela frente".
Quero ver quem é que vai sobrar quando essa onda revivalista dos 80 acabar. Se é que vai acabar. Porque por enquanto é muito fácil enfeitar o som com sintetizadores vagabundos, fazer pose de indie largadão e chamar isso de "moderno". Querer ser moderno não é ser moderno - que o digam os neozelandeses do Kids Of 88. Meros aproveitadores. Aposto que eles gastaram mais tempo pensando no nome da banda do que compondo as músicas desse fraquíssimo Sugarpills, lançado mês passado. A única faixa desse disco que ameaça funcionar é o rockzinho de prato sibilante "My House", mas os vocais insuportáveis põe tudo a perder. Mesmo assim, esse single lançado em Abril do ano passado foi suficiente para render à dupla Jordan Arts (teclados) e Sam McCarthy (vocais) um contrato com a Sony Music. O diretor de A&R da Sony deve ser um cara muito otimista. Ou surdo.
A ascensão do Klaxons foi meteórica. Os ingleses apareceram por volta de 2005 e gravaram uma série de compactos em vinil 7" por diferentes selos até chegar a um contrato com a Polydor e ver seu álbum de estréia, o elogiado Myths Of The Near Future de 2007, vender quase 300 mil cópias na Inglaterra. Muito paparicado pelo NME que popularizou o termo New Rave e praticamente o associou ao Klaxons, a banda tem ótimos singles como o frenético debut "Gravity's Rainbow", a macumbeira "Magick" e a doce "Golden Skans". O novo álbum, Surfing The Void, sai dia 23 de Agosto e mostra que eles não mudaram nadinha - o que pode ser bom e ruim. Pra quem curte aqueles vocais dobrados o tempo todo (eu, por exemplo) e a pegada bem enérgica da banda, é legal que eles tenham mantido isso como identidade. Já quem não suporta os instrumentos achatados numa massaroca sonora caótica e distorcida, vai ter motivos de sobra pra detestar várias canções, e encontrar na faixa-título o maior expoente de tal defeito. Honestamente, não acredito muito nos rótulos new rave e dance-punk atribuídos ao Klaxons, a não ser pelo fato dos singles da banda sempre conterem remixes e isso os ligar à uma pista de dança. Ouvindo Surfing The Void assim, cru, não dá pra imaginar essa ponte indie/dance. Há boas músicas aqui, caso do climão épico de "Echoes", momentos de ataque mais moderado ("Valley Of The Calm Trees" e "Twin Flames"), energia canalizada ("Flashover") e psicodelia regada à teclados vintage ("Future Memories"). No final das contas, acho que o problema mesmo é que ouvir Surfing The Void inteiro, cansa. Fora que essa capa do gatinho astronauta é lamentável.
Alguns artistas deveriam pensar com carinho se vale mesmo a pena lançar um álbum ou se seria melhor concentrar as boas idéias nos singles. Caso do Disco Biscuits, banda de rock com tiquezinhos eletrônicos da Filadélfia. Não é que "Planet Anthem", o disco que eles acabaram de soltar no mercado, seja tão ruim. Ele tem bons momentos. Dois, pra ser mais exato. A faixa de abertura "Loose Change", com seu riff preguiçoso de guitarra e seus vocais chapados no melhor jeito Shaun Ryder de ser, é um deles. O mix de guitarras com batucada dance da faixa funciona tão bem que depois de ouvir algumas vezes bate até uma saudade do The Farm. A outra canção digna de nota é a viciante "On Time". Aqui a levada de baixo vai serpenteando junto com a genial programação de bateria e os teclados vão subindo devagarinho na ponte pra um dos refrãos mais ganchudos que ouvi nos últimos tempos. E era isso. Se você ainda quiser pescar algo interessante, talvez encontre na climática (sem trocadilhos) "Rain Song" e no funk étnico de "Uber Glue", perdidas no meio das outras treze faixas. O que estraga o álbum são as tentativas disco-punk mal-sucedidas da trinca "You And I", "Sweatbox" e "Save Your Soul" e faixas completamente sem sal como "Fish Out Of Water" e "Big Wrecking Ball", rockzinhos sem a menor inspiração. As duas melhores faixas desse álbum já saíram no EP "On Time" do ano passado. É nele que se resume o que há de realmente bom em "Planet Anthem".