Duas boas notícias: o duo sueco Modual acabou de lançar seu terceiro EP, e ele está disponível para audição e download gratuitamente no Soundcloud.
Em Choose Your Confusion, Mikael Sjöberg e Olle Thulin suavizam ainda mais seu drum'n'step elegante com basslines mais macios e vocais pop que combinados à placidez dos sintetizadores casam direitinho com a batida cadenciada do dubstep em "Fade Away" e com o emaranhado percussivo drum'n'bass de "As We're Falling". A diferença é que agora o Modual arrisca com andamentos mais pop ("Dying Breed" e "No Way Out"), e quando acerta em cheio o resultado é uma faixa como "Had You", equilibrada entre um riff liquefeito de sintetizador e os vocais dilacerados de Sjöberg. Eletrônica invernal, mas não soporífera.
Tech house ou progressive trance? Sei lá. O que importa é que o novíssimo single "Costa Rica" do duo sueco Ticon é tão empolgante que parece ser daqueles hits de pista que já nascem prontos pra manter um alto número de pés em movimento sob luzes frenéticas numa pista de dança. Dance track da semana.
Axel Willner, o produtor sueco por trás do bigode e do pseudônimo The Field é minimalista até nas capas de seus álbuns: a arte de seu terceiro disco (Looping State Of Mind, sai oficialmente em Outubro pela alemã Kompakt), é igualzinha a de seus antecessores Yesterday And Today(2009) e From Here We Go Sublime (2007).
A despeito de sua escassa variedade temática na escolha das embalagens, Willner sabe apertar os botões certos no conteúdo. Com sete longas faixas, seu modus operandi - que o título já entrega de cara - consiste em construir um tema principal e repeti-lo ao infinito; adicionando elementos aos poucos e crescendo devagar com BPMs contidos até chegar num estado de quase transgressão física, como na faixa de abertura "Is This Power", por exemplo: levam quase cinco minutos para a nuvem de sintetizadores se dissipar e a música ganhar uma amostra de guitarra desolada que percorre dois minutos de calmaria, até um rufo de caixa recolocar tudo no caminho de novo. "It's Up There" segue na mesma direção com beats engrenados e teclados hipnóticos, enquanto "Burned Out" tira o pé do acelerador transformando-se numa faixa ambient emoldurada por sons de guitarra evervescentes e vozes etéreas. O álbum tem bumbos macios, linhas de baixo fluidas e a maioria dos registros aqui evocam uma espécie de paisagismo sonoro a partir de edificações lineares - exceto pelas duas últimas faixas, onde o ritmo é quebrado em favor de duas canções que abusam dos loops, mas abrem mão da batida 4x4. Looping State Of Mind pode até tocar em pistas muito específicas, mas nem sei se a tag dance music é capaz de ser um dos rótulos desse disco. Talvez "Arpeggiated Love" com seus quase 11 minutos de techno espacial seja a que mais se aproxime em intensidade de ter suas notas iluminadas por estroboscópicas, mas no geral a intenção é prender pela mente, não pelos pés. E o The Field consegue.
Não acho que os suecos maluquetes do Teddybears vão chamar muita atenção com as músicas de seu novo EP - nem com a temática um tanto tardia da faixa-título, nem com a sonoridade propriamente dita. "No More Michael Jackson" mistura um vocoderkraftwerkiano com um suingue robótico e é até animadinha, mas o hip-hop digital "Why You Wanna Look At Me Like That" e os rocks cibernéticos "Weed In A Rizla" e "Cole" (esta algoJustice) não devem passar de meras coadjuvantes esquecíveis no meio da tentativa electro da banda de reverenciar o Rei do Pop. Agora, a capa do EP (acima) é genial. Capa do ano e ninguém tasca.
"No More Michael Jackson": moonwalk à 150 por hora.
A Suécia é uma terra fértil no que tange à artistas pop. Aposto que sua mãe não sabia que o Roxette era de lá quando ouvia a dupla nas FMs em 1989. Tem uma vanguarda de respeito também. The Knife é um nome que merece estar em qualquer lista de artistas relevantes na eletrônica atual. Bom, o Little Dragon tenta se equilibrar nos dois terrenos: um pé no chão firme e seguro do Popular, outro no arriscado e pantanoso do Experimentalismo.
Não que algo aqui nesse terceiro álbum (Ritual Union) soe como trilha de novela das sete do Roxette, nem como as aventuras do Knife no mundo dos ruídos eletroacústicos (Tomorrow, In a Year, do ano passado), mas algum elemento inusual parece sempre rondar boas melodias (os zumbidos irritantes de "Brush The Heat" que destroem o que poderia ser uma canção boa de assobiar, por exemplo). O arranjo preguiçoso de "Little Man" não ajuda, tampouco a percussão caótica da cinzenta "When I Go Out". E quando as coisas ameaçam engrenar, como no par de canções "Shuffle A Dream"/"Please Turn", tem algo que definitivamente não deixa o Little Dragon rodar macio: a vocalista nipo-sueca Yukimi Nagano. Eu só não sei ainda se o problema é a maneira como ela canta (entre distante e entediada) ou se a culpa está no jeitão lo-fi de como sua voz foi gravada - parece seca, perdida e/ou incompatível com o instrumental. Se eu encontrar com o engenheiro de som do Little Dragon, vou dar a dica.
Little Dragon, Yukimi Nagano e a faixa-título: não foram feitos um para o outro.
Le Prix é sueco e lança suas músicas pela americana Girlfriend Records, selo digital independente focado em synthpop amplamente inspirado nos 80 ("que novidade", pensou você). Entendo que esse negócio parece estar em todo lugar atualmente, mas perca mais dois minutos que isso aqui pode ser legal. O EP Eyelash OK saiu agorinha, dia 11 de Março.
A música é toda instrumental, com uma linha de baixo daquelas que parecem ter sido programadas usando os dois dedos indicadores e várias amostras de sintetizadores dançados numa batida disco. E ainda tem um remix muito interessante do Gossip Culture, que engordou o baixo e dedilhou umas guitarras por cima do original.
A culpa é do ABBA. Desde que esses dois casais chegaram ao topo da parada inglesa pela primeira vez em Abril de 1974 com o single “Waterloo”, as coisas nunca mais foram as mesmas pro pop escandinavo. E não precisa pensar muito pra montar uma lista de artistas de sucesso que vieram de lá depois disso. Produtores/compositores dispostos a engrossar essas fileiras, Henrik Jonback, Henrik Korpi, Tommy Spaanheden e Peter Ågren montaram o The Amplifetes a pouco mais de um ano. Eles vem de trabalhos individuais com nomes que incluem Kelis, Madonna, Grandmaster Flash e Peter Bjorn and John. As experiências com nomes tão diversos refletem-se no projeto em conjunto, baseado em psicodelia sessentista, Elvis Costello, Ramones, David Bowie e house de Chicago - segundo a biografia da banda em seu site oficial. A banda deu sorte de ter seu primeiro single incluído numa campanha da grife do estilista italiano Roberto Cavalli, estrelada por Milla Jovovich. Por tabela, o electro garageiro “It’s My Life” acabou chamando a atenção para o som do grupo:
Vídeo da campanha de Roberto Cavalli:
Vídeo oficial de “It’s My Life”:
“Whizz Kid“, o segundo single também lançado em 2009 manteve a atenção da blogosfera no Amplifetes, até que em Maio desse ano eles se saíram com uma das grandes músicas de 2010: "Somebody New". A faixa é um Franz Ferdinand impulsionado por um motor synthpop sem vestígio de qualquer ranço retrô e que visualiza cada canto da pista de dança pra manter todos os pés na mais alta concentração de movimento por metro quadrado possível. Irretocável.
Vídeo oficial de “Somebody New”:
De quebra, de novo uma faixa da banda é escolhida como tema de uma campanha publicitária. Dessa vez, “Somebody New” aparece num anúncio da Garnier:
Finalmente, o debut saiu agora em Setembro. O álbum epônimo traz pela enésima vez uma música baseada em "I Feel Love" de Donna Summer (o improvável rockabilly eletrônico de "Fokker"), house em slow motion (os tecladinhos desacelerados em "When The Music Died" só podem ser de "Understand This Groove" do Sound Factory), e – sem trocadilhos - pop dançante de encher os olhos ("Blinded By The Moonlight"). Causa um certo desconforto passar pelas 12 faixas do disco ouvindo o vocal achatado de efeito do barbudo Peter Ågren, mas ás vezes isso é gol a favor e contribui pra aumentar a sensação de desolação – como na balada glacial “A Million Men”, ou pode tornar o clima ainda mais desencanado, como em “Somebody New”. Optar simplesmente por limar os vocais a favor de uma melodia assoviada (a bela instrumental “It Can’t Rain All The Time”) também alivia um pouco. Álbum lançado, marketing funcionando, tour planejada ainda pra 2010, e o Amplifetes merece ser enquadrado no clichê "eles tem um futuro promissor pela frente".
Conheci o som dessa dupla sueca lá no INMWT do Denis Pedroso. A capa acima é o EP de estréia dos caras, Modual Promo EP, por enquanto disponível para venda somente no formato digital no Soundcloud. Depois que algumas audições minhas foram registradas pelo LastFM, Mike - metade do Modual - me enviou um e-mail dizendo que havia percebido que eu havia gostado do som, e resolveu escrever para explicar um pouco sobre a música desse duo de Estocolmo. Segundo ele, o Modual "mistura dubstep com drum'n'bass somado à vocais pop e arranjos de cordas, para criar sua própria versão de música de pista". A descrição de Mike cabe nas três faixas do EP: "Waltz" tem batida forte cadenciando o ritmo drum'n'bass e um sax jazzy bem relaxado atravessando toda música. "Deeper Than This" é a parcela dubstep do EP, com subgraves forrando o arranjo. "Shadows Play" foi a que me viciou de cara. Originalmente seria chamada de drum'n'bass, mas os pianos, as cordas e os vocais macios pedem outro nome. "Chill'n'Bass"? "Drum'n'Ambient"? Ouça as faixas no MySpace da banda e defina você onde a música do Modual se encaixa melhor.
Paciência. É isso que você vai precisar, se estiver disposto a encarar "Tomorrow, In A Year", disco novo da dupla sueca The Knife. Lançado digitalmente dia 28 de Janeiro e agendado para venda física (CD duplo) em 01º de Março, a ousada obra é algo como uma ópera eletrônica (com libretto e tudo!) baseada no livro “A Origem das Espécies” de Charles Darwin e composta em parceria com a cantora inglesa Janine Rostron, mais o DJ americano Mt.Sims (Matt Sims), artistas performáticos/vanguarda e ambos residentes em Berlim. Esqueça o Knife dos engenhosos hits "Got 2 Let U" e "Heartbeats", porque o que temos aqui é uma hora e meia de ausência quase total de batidas - os beats só vão aparecer lá pela 12º música, a ritualesca "Colouring of Pigeons". É também nessa faixa que a abençoada voz de Karin Dreijer Andersson aparece pela primeira vez no álbum (como referência imediata, são dela os vocais na inesquecível "What Else Is There?" do Röyksopp). "Colouring of Pigeons" acaba sendo uma das músicas mais acessíveis do disco, apesar dos seus 11 minutos. O mesmo não dá pra dizer de "Variation of Birds", de título sugestivo e com seis minutos de distorções em altas frequências levadas ao limite da dor de ouvido. A palavra "experimental" te assusta? Então nem arrisque ouvir os latidos sintéticos de "Letter to Henslow", muito menos a faixa seguinte, "Schoal Swarm Orchestra", uma floresta impenetrável de ruídos ambientais reconstruídos pela tranqueira cibernética.
Passar uma hora escutando o disco (capa acima) deveria ser sugerido ao BOPE para fazer parte do seu rigoroso treinamento, então - vencida a etapa - a última meia hora é quase uma recompensa que começa com a já citada "Colouring of Pigeons" e emenda com a batida 4x4 e os teclados minimalistas de "Seeds" - dançável mas sem a menor chance de virar hit de pista. Ainda dignos de nota são os 12 épicos minutos da faixa-título, carregada de referências orientais e "The Height of Summer", a única música que poderia figurar em algum dos três álbuns anteriores do Knife. A audácia dos irmãos Karin e Olof Dreijer provavelmente vai colocar "Tomorrow, In A Year" em muitas listas de "Melhores de 2010" no fim do ano porque, reconheço, é um trabalho notadamente esmerado e de inegáveis pretensões artísticas. Acontece que minha escala "Einstürzende Neubauten" para experimentalismos sonoros bateu no vermelho com esse disco. Além do mais, acho ópera um saco.