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Thursday, April 26, 2012

Universo Em Desencanto


Ouvir Kill For Love - álbum mais recente dos americanos do Chromatics - é imaginar como seria se o New Order tivesse escolhido a tecladista Gillian Gilbert como vocalista ao invés de Barney Sumner. Talvez Movement, debut da banda inglesa lançado em Novembro de 1981 soasse assim. Apesar da voz pequenininha, Ruth Radelet encaixa-se confortavelmente aos sintetizadores congelados e de timbres fascinantes (o que é aquele teclado de "Lady"?). Pós-punk elegante, quase dançável sob suas baterias nada complexas ("The Page") e com riffs de guitarra básicos e certeiros ("Back From The Grave"), Kill For Love é um disco estranhamente encantador, dolorosamente bonito - uma ponte bem cimentada entre o indie e o eletrônico analógico com canções bem feitas e um cover escolhido à dedo: "Hey Hey, My My" de Neil Young abre o disco creditada apenas como "Into the Black". Climático e melancólico, dos títulos das faixas ("Dust to Dust", "No Escape", "Back From The Grave") até as composições instrumentais nubladas ("There's a Light Out On the Horizon", "Broken Mirrors"), Kill For Love exige uma hora e meia de dedicação à sua viagem sombria e de nada fácil digestão, mas extremamente recompensadora. Bom dia, tristeza.

"The Page": black is beautiful.

Sunday, October 23, 2011

A Drummer Called Boris


Alguma dúvida que o francês Boris Peter Bransby Williams foi o melhor baterista que passou pelo The Cure? Presente na banda de 1984 até 1993, Williams imprimiu um padrão rítmico no som do grupo inglês facilmente identificável, aproveitando-se da tecnologia para extrair efeitos certeiros de baterias eletrônicas e samplers, tanto no estúdio quanto ao vivo.



Esta versão de "Play For Today" foi extraída do vídeo The Cure in Orange gravado na França em 1986 e lançado um ano depois. Capta a banda no auge da forma e talvez com seu melhor line-up: Robert Smith, Simon Gallup, Porl Thompson, Boris Williams e Lol Tolhurst. Aqui, a performance de Williams impressiona. Com a precisão de um metrônomo ele conduz caixa, bumbo, chimbau e ainda encontra espaço para golpear o pad da bateria eletrônica e os pratos de ataque - praticamente um polvo do pós-punk. Perfeição.  

Tuesday, June 14, 2011

Plano Piloto


É bem provável que o quarteto Vitrine não almeje ocupar o nicho no mercado fonográfico que está vago desde o fim do Legião Urbana (mesmo com as tentativas fracassadas do esquecível Catedral, por exemplo), e isso é muito bom. Até porque esse tal mercado mudou absurdamente de vinte anos pra cá (leia-se ninguém mais compra discos e o mercado de download pago aqui na terra da Claudia Leitte engatinha) e também porque talvez as coincidências existentes estejam só nas origens locais e musicais de ambas as bandas: Brasília e pós-punk, respectivamente.


Ouvindo o single Zero Hora - lançado no final do ano passado - dá pra perceber que o gosto por palhetadas vigorosas de guitarra e baixos bem cadenciados não fazem do Vitrine the next big thing nem trazem nenhum tipo de esperança de que o bom rock, um dia, vai triunfar. Porque, acredite, não vai. Daqui pra frente é ladeira abaixo. Simples assim. É só dar uma olhada à sua volta. Pega o Brasil Hot 100 Airplay da Billboard e me diz se tem alguém que se salva ali. Não tem. Mas o que o Vitrine oferece então? Numa palavra: honestidade. Penso que esses caras acreditam no que estão fazendo, no que estão cantando - mesmo que isso remeta à uma época (sim, os anos 80) em que não seria constrangedor ouvir um verso como "Sou tão velho para entender/Tão jovem pra me ajoelhar" ("Submissão") ou fechar os olhos e visualizar Ian McCulloch cantando o refrão de "Esther", sob uma linha de baixo pulsante. A canção pra se estar atento aqui, no entanto, é inegavelmente a faixa-título. Bateria e guitarra duelando à Strokes e um refrão pop prontinho pra grudar na memória. E assim - sem camisas xadrez ou bigodinho indie, sem um nome pseudo-engraçadinho, sem cabecices ou politizações vazias - o Vitrine chega no seu single de estréia, produzido por Philippe Seabra (Plebe Rude), apostando na lógica invertida do "pra que complicar se a gente pode simplificar?". Go ahead, rapazes.

   O belo vídeo em P&B de "Zero Hora": darkismo sutil.



Monday, March 8, 2010

O Melhor Pedaço da Costela




Nada mal falar de um álbum chamado "Música para homens" no Dia Internacional da Mulher. Liderado pela grande (em todos os sentidos) vocalista Beth Ditto, o Gossip chegou ano passado ao seu quarto disco de material inédito. Produzido por Rick Rubin (dá uma olhada nas bandas que já passaram pelas mãos do cara aqui) e lançado em Junho, "Music For Men" já vendeu até agora mais de 400 mil cópias. Justíssimo, o disco é sensacional e pra mim é o melhor álbum de rock do ano passado: guitarras sujinhas, pinceladas de sintetizadores, linhas de baixo galopantes e os ótimos vocais de Ditto o credenciam à isso. Tudo muito dançante, nervoso, urgente... e pop. Muito digno de nota destacar a bateria de Hannah Blilie, a gracinha que estampa a capa do disco.

Assista a performance do Gossip para "Heavy Cross" (primeiro single extraído de "Music For Men") nos estúdios da BBC. Se isso não te convencer a correr atrás do disco, esqueça o Gossip pra sempre.

Monday, November 30, 2009

Divisão da Alegria



Mês passado o Editors lançou seu terceiro, e provavelmente, melhor álbum: "In This Light and On This Evening". Nem sei se ainda é necessário citar o Joy Division pra escrever sobre um disco do Editors, do Interpol ou ainda do She Wants Revenge - mas vai que você esteve em coma nos últimos dez anos? Pode ser relevante localizá-lo no tempo e no espaço pop e dizer que o finado vocalista do Joy, Ian Curtis, está assombrosamente presente nos vocais de Tom Smith. Ouça a sexta faixa do disco, "The Boxer", e deixe este seu sábio juiz (o ouvido) decidir: não é espantosa a semelhança?



A voz gutural de Tom Smith também vem das profundezas na faixa-título (que abre o álbum) e aqui dá pra ter uma idéia do que tem 43 minutos à frente: o Editors agora concentra seus riffs mais nos sintetizadores do que propriamente nas guitarras e o resultado é fantástico; os timbres são poderosos, ameaçadores. A melodia de "Papillon", o primeiro single do álbum, também evidencia isso:



"Like Treasure" é outro momento particular. Os vocais estão quase em segundo plano e é a melhor participação do baixista Russell Leetch no disco, numa linha de baixo pulsante e que conduz a faixa com segurança em meio ao redemoinho de teclados:



"In This Light and On This Evening" foi produzido por Flood (Depeche Mode, Smashing Pumpkins, U2, Killers e mais um monte de gente boa no currículo), e estreou direto em primeiro lugar na parada inglesa. Sinal de que a pequena correção de rota no pós-punk do Editors foi muito bem recebida, ao menos pelo público.