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Thursday, April 26, 2012

Universo Em Desencanto


Ouvir Kill For Love - álbum mais recente dos americanos do Chromatics - é imaginar como seria se o New Order tivesse escolhido a tecladista Gillian Gilbert como vocalista ao invés de Barney Sumner. Talvez Movement, debut da banda inglesa lançado em Novembro de 1981 soasse assim. Apesar da voz pequenininha, Ruth Radelet encaixa-se confortavelmente aos sintetizadores congelados e de timbres fascinantes (o que é aquele teclado de "Lady"?). Pós-punk elegante, quase dançável sob suas baterias nada complexas ("The Page") e com riffs de guitarra básicos e certeiros ("Back From The Grave"), Kill For Love é um disco estranhamente encantador, dolorosamente bonito - uma ponte bem cimentada entre o indie e o eletrônico analógico com canções bem feitas e um cover escolhido à dedo: "Hey Hey, My My" de Neil Young abre o disco creditada apenas como "Into the Black". Climático e melancólico, dos títulos das faixas ("Dust to Dust", "No Escape", "Back From The Grave") até as composições instrumentais nubladas ("There's a Light Out On the Horizon", "Broken Mirrors"), Kill For Love exige uma hora e meia de dedicação à sua viagem sombria e de nada fácil digestão, mas extremamente recompensadora. Bom dia, tristeza.

"The Page": black is beautiful.

Sunday, November 13, 2011

Dark de Verdade


O figura com pinta de ator do cast do José Mojica Marins aí acima chama-se Spoek Mathambo. Aos 24 anos, o rapper e DJ nascido em Soweto faz parte da nova geração de artistas africanos entrincheirados na linha de frente da nova música eletrônica daquele continente. Também designer gráfico e ilustrador, Spoek lançou ano passado seu primeiro álbum, Mshini Wam.


Quarto single extraído do disco, "Control" é uma das músicas mais interessantes que escutei esse ano. Primeiro porque a idéia de transformar o clássico "She's Lost Control" do Joy Division numa faixa dance já soa desafiadora por si só e segundo porque o resultado final é surpreendente. Spoek subverteu o original numa house revestida de frequências baixíssimas de grave, ocasionais detalhes afro e vocais perversamente narrados dentro de um vocoder assustador, com alto teor de dançabilidade. O vídeo é outro caso à parte: idealizado pelos fotógrafos sul-africanos Pieter Hugo e Michael Cleary, o clip traz uma sequência perturbadora de cenas de rituais e possessões muito bem interpretadas pelo projeto Happy Feet, um grupo de dança que reúne a molecada local. Nem Wes Craven faria melhor. Eu, hein.

"Control": Ian Curtis dançaria essa?

Sunday, October 23, 2011

A Drummer Called Boris


Alguma dúvida que o francês Boris Peter Bransby Williams foi o melhor baterista que passou pelo The Cure? Presente na banda de 1984 até 1993, Williams imprimiu um padrão rítmico no som do grupo inglês facilmente identificável, aproveitando-se da tecnologia para extrair efeitos certeiros de baterias eletrônicas e samplers, tanto no estúdio quanto ao vivo.



Esta versão de "Play For Today" foi extraída do vídeo The Cure in Orange gravado na França em 1986 e lançado um ano depois. Capta a banda no auge da forma e talvez com seu melhor line-up: Robert Smith, Simon Gallup, Porl Thompson, Boris Williams e Lol Tolhurst. Aqui, a performance de Williams impressiona. Com a precisão de um metrônomo ele conduz caixa, bumbo, chimbau e ainda encontra espaço para golpear o pad da bateria eletrônica e os pratos de ataque - praticamente um polvo do pós-punk. Perfeição.  

Thursday, October 20, 2011

Numanóide


Que tal o Gary Numan versão 2011? Aos 53 anos, Gary Anthony James Webb (ou o vovô do pop tecnológico) deu um tapa na peruca e lançou Dead Son Rising em Setembro, cinco anos após seu último álbum.


Os cabelos podem não estar iguais aos de 1979, quando Numan mandava aquele olhar pro infinito no vídeo da clássica "Cars", mas a voz continua a mesma. O disco pega pesado em timbres grandiloqüentes de sintetizadores e guitarras com padrão Megadeth de distorção ("When The Sky Bleeds, He Will Come"), traz a habitual temática sci-fi em "Dead Sun Rising" e desnuda Numan ao piano com a gélida "Not The Love We Dream Of". O cantor mergulha fundo num experimentalismo orientalizante em "We Are The Lost" regida por uma batida ritualista e vocais assustadores, mas cai de quatro sob um violão monocórdico e synths deformados na gótica "For The Rest Of My Life". "The Fall" teve minha simpatia instantânea com sua bateria espancada, refrão messiânico e levada dançante. Percebendo aí um hit de pista em potencial, a faixa ganhou um vinil com três remixes na Super Deluxe Edition do disco. Bom trabalho, Sir Numan.

"The Fall": ator canastrão, cantor exímio.




Wednesday, October 19, 2011

Cruzes


Você não caiu nessa de witch house, né? Esse suposto gênero musical que combina house music com temática ocultista foi uma piada que o Pitchfork Media popularizou um tempo atrás e considerar isso uma nova subdivisão na música é tão engraçado quanto o nome de algumas bandas da "cena": Gvcci Hvcci, BL§§D ØU†, GuMMy†Be▲R!, oOoOO.  


O Crosses não tem nada a ver com essa onda, embora tenha recebido essa tag por aí. Talvez por culpa das três cruzes adotadas como símbolo do projeto ou do clima soturno das composições. Chino Moreno (vocalista do Deftones) mais Shaun Lopez e Scott Chuck reuniram-se no meio do ano e o primeiro EP auto-intitulado já saiu. Nas cinco faixas temos batidas programadas em baixa rotação, guitarras altas ("Option)", sintetizadores sombrios ("Cross") e o geralmente nervoso Chino Moreno domando a voz nas estrofes para explodir em refrãos grandiosos como o da excelente "This is a Trick" (que tem participação de Duff McKagan no baixo). O trio disponibilizou o EP gratuitamente, e pra quem se dispõe a pagar cinco dólares, o download vem em alta qualidade de áudio. Vale.

"†his Is A †rick": fixação pela figura geométrica.




Thursday, September 29, 2011

Drums Without Drums


 Depois de um álbum de estréia elogiado e bem sucedido comercialmente, uma tour que foi da Coréia ao Brasil, o guitarrista Adam Kessler pedir o boné em Setembro do ano passado e a banda quase encerrar atividades em Junho desse ano, os nova-iorquinos do The Drums conseguiram parir o segundo disco.  


E que beleza de disco. Portamento saiu no comecinho de Setembro com essa capa incômoda aí acima, que lembra mais uma certa identidade visual de artistas de witch house do que um grupo indie pop. Mesmo com músicas de estrutura simples e a sensação de que o trio ainda está aprendendo a dominar os instrumentos, não deixa de ser empolgante ouvir uma bateria com aquele bumbo esquisito de "Blue Stripes" ou as rufadas de caixa e chimbau de "I Need A Doctor". Aliás, segundo informação que consta no encarte do CD, o responsável pela bateria é o vocalista Jonathan Pierce, mas curiosamente todos os elementos percussíveis que aparecem nas 14 faixas me cheiram à programação eletrônica. O sintetizador é outro fator (bem) explorado em Portamento. A opção por timbres adequados e contidos leva o refrão da cinzenta "If He Likes It Let Him Do It" para outro plano, cria um baixo postiço em "Hard To Love" ou fornece uma confortável sustentação para o pop de "How It Ended". Portamento traz ecos de New Order especialmente nos baixos palhetados peterhookianos de faixas como "Days", The Smiths nas guitarras melódicas e limpas e mais claramente no estilo Morrissey de cantar de Pierce nos versos iniciais do irônico single "Money" e ainda The Beach Boys como referência óbvia nas harmonias vocais de "What We Had" ou em qualquer backing vocal contido no disco. Cativante e melancólico em doses iguais, Portamento é o retrato de uma banda tão jovem quanto o seu público que entendeu a mágica do negócio ao entregar mais um punhado de canções aprazíveis, sem afetação e sem fusões malucas pra chamar atenção. Sério candidato pro meu Top 10 do ano.

"If He Likes It Let Him Do It": refrão que explode em darkismo.



Sunday, September 25, 2011

Björpple


Já ouviu Biophilia, o novo projeto de Björk? Sim, porque aqui a coisa estrapola o limite do "disco", como nós conhecíamos até hoje. As faixas de "Biophilia" virão - além do formato físico em CD - na forma de aplicativos para iPad e inclusive foram, em parte, gravadas no tablet da empresa de Steve Jobs. A parceria com a Apple renderá jogos interativos e músicas remixáveis para quem se dispor a pagar por cada uma delas.


Biophilia, o disco... complicado, viu? Ela continua inquestionavelmente cantando tão bem - ou melhor - do que aquela Björk do Sugarcubes que fez de "Birthday" uma obra-prima (em "Crystalline"), há momentos de delicadeza e sensibilidade de fazer diminuir a pulsação do mais vândalo dos Hooligans ("Virus" é um bom exemplo) e há uns ataques de tambores de video-game bem nervosos ("Mutual Core"), mas no geral, temo não ter entendido o álbum. Ou porque tenho um bode tremendo de projetos como esse, que nascem com o carimbo de Grande Arte na capa; ou porque não tenho a sensibilidade necessária para compreender parte da obra solo de Björk; ou porque não tenho - nem pretendo ter - um iPad pra tornar essa experiência completa. Na dúvida, fico com os três motivos.

"Crystalline": Michel Gondry criativo como sempre.



Monday, November 30, 2009

Divisão da Alegria



Mês passado o Editors lançou seu terceiro, e provavelmente, melhor álbum: "In This Light and On This Evening". Nem sei se ainda é necessário citar o Joy Division pra escrever sobre um disco do Editors, do Interpol ou ainda do She Wants Revenge - mas vai que você esteve em coma nos últimos dez anos? Pode ser relevante localizá-lo no tempo e no espaço pop e dizer que o finado vocalista do Joy, Ian Curtis, está assombrosamente presente nos vocais de Tom Smith. Ouça a sexta faixa do disco, "The Boxer", e deixe este seu sábio juiz (o ouvido) decidir: não é espantosa a semelhança?



A voz gutural de Tom Smith também vem das profundezas na faixa-título (que abre o álbum) e aqui dá pra ter uma idéia do que tem 43 minutos à frente: o Editors agora concentra seus riffs mais nos sintetizadores do que propriamente nas guitarras e o resultado é fantástico; os timbres são poderosos, ameaçadores. A melodia de "Papillon", o primeiro single do álbum, também evidencia isso:



"Like Treasure" é outro momento particular. Os vocais estão quase em segundo plano e é a melhor participação do baixista Russell Leetch no disco, numa linha de baixo pulsante e que conduz a faixa com segurança em meio ao redemoinho de teclados:



"In This Light and On This Evening" foi produzido por Flood (Depeche Mode, Smashing Pumpkins, U2, Killers e mais um monte de gente boa no currículo), e estreou direto em primeiro lugar na parada inglesa. Sinal de que a pequena correção de rota no pós-punk do Editors foi muito bem recebida, ao menos pelo público.