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Monday, July 2, 2012

Michael Jahckson

O Easy Star All-Stars é um coletivo de reggae mezzo jamaicano mezzo americano. Reúne músicos e cantores do gênero, e oficialmente, grava desde 2003. O lance deles é curioso: regravar álbuns clássicos em formato de reggae. Poderia até ser um negócio meio oportunista, mas uma ouvida no trabalho da banda evidencia o talento dessa tchurba em verter coisas improváveis no ritmo abençoado por Jah sem objetivos comerciais claros. O barato aqui é provar que qualquer coisa pode virar reggae dos bons: até Pink Floyd e Radiohead. Foi assim que eles lançaram a primeira parte do projeto: Dub Side Of The Moon (2003), que nem preciso dizer que disco da banda de David Gilmour os Stars homenageiam. Em 2006 veio mais um ótimo trocadilho (Radiodread), e um álbum inteirinho de reggae em cima de OK Computer do Radiohead. Finalmente em 2009 foi a vez dos Beatles e seu Sargento Pimenta em Easy Star's Lonely Hearts Dub Band.

O mais novo desafio do Easy Star é ver o que aconteceria se o disco mais vendido de todos os tempos (Thriller, de Michael Jackson) tivesse sido gravado em Kingston. Nada fácil mexer com esse vespeiro, mas os Stars se dão bem, sim. Respeitando até a ordem das faixas, começam com uma "Wanna Be Startin' Somethin'" cheia de metais, mas sem o nheco-nheco do reggae: é num funk cru e redondinho que eles suam os dreadlocks. "Baby Be Mine" vira um ska de lindos vocais, "The Girl Is Mine" sai do pop romântico original e vai pras praias ensolaradas do Caribe (junto com Steel Pulse), "Thriller" ganha um baixo orgânico musculoso (substituindo o groove sintetizado original), enquanto "Beat It" cai de rotação numa batida preguiçosa. "Billie Jean" vem cheia de ecos dub e "Human Nature" parecia estar esperando por uma versão jamaicana de tão bem encaixada que ficou. Pra completar a sequência original, "P.Y.T. (Pretty Young Thing)" e "The Lady In My Life" são mais relaxadas e doces com seus vocais femininos. Pra fechar o álbum, dois dubs siderais: "Dub It" (feita a partir de "Beat It") e "Close To Midnight" (de "Thriller"). O esmero e a musicalidade empregadas em Thrillah não deixam dúvidas sobre a relevância da homenagem: passa longe de um simples álbum de covers. Certeza que Michael Jackson aprovaria.

"Billie Jean": vou apertar, mas não vou acender agora.

Tuesday, June 26, 2012

Dub Fraturado


Fosse julgar pela capa, eu diria se tratar de um disco de R&B fuleiro. Nada disso. O que a londrina Merrisa Campbell oferece em seu debut Playin Me é um coquetel sedutor de dubstep embebido em generosas doses de dub e UK garage. É uma quebradeira cool, relaxada e sexy, com vocais sobrepostos e ritmos trôpegos.


Produtora, cantora e DJ, Cooly G me impressionou bastante pelas programações de bateria no disco, especialmente "What Airtime" pela sequência insana de socadas do bumbo e "Is It Gone" pela profusão de efeitos. Mas isso é só a parte técnica, porque o que tem aqui de canções genericamente inclassificáveis como "He Said I Said" (onde um loop de guitarra cria uma expectativa que só intensifica o suspense sobre pra onde a faixa vai: reggae? soul?), trips sossegadas ("Landscapes"), ótimos vocais (em "Come Into My Room" é difícil resistir ao pedido), reggae futurista ("Sunshine") e até um cover de "Trouble" (Coldplay) tão deliciosa quanto a original. No meio já superpopuloso do dubstep, um disco surpreendente.

"Landscapes": fugindo da mesmice em que o gênero já se meteu.        


Thursday, November 3, 2011

Tangoless


Os órfãos do Gotan Project periga se interessarem pelo Submotion Orchestra. Não que o Gotan - este projeto parido por um argentino, um francês e um suíço - tenha acabado, não é isso... mas você sabe, aquele tango eletrônico renovador e impressionante do trio funcionou 100% no debut La Revancha Del Tango de 2001, 50% no segundo álbum de fato (Lunático, de 2006) e dali pra frente a fórmula ficou presa no próprio tubo de ensaio.  


Buenas, o que os ingleses do Submotion tem a ver com o Gotan? Essencialmente electronica, jazz, dub e uma lona escura feita de trip-hop cobrindo tudo. O diferencial é que o grupo de seis músicos de Leeds passa longe dos ritmos portenhos e tem à sua frente uma vocalista fantástica chamada Ruby Wood. É ela com sua voz de Sade albina quem acalma as linhas de baixo que fazem os alto-falantes tremerem em certos trechos de Finest Hour, álbum lançado em Agosto deste ano. Atual mas não aproveitador, o Submotion encaixa-se confortável no dubstep vigente ("Back Chat") e no drum'n'bass jazzy ("Always"), ao mesmo tempo em que aproveita os músicos que tem pra criar um instrumental emocionante e detalhista como o da faixa título. Pontuado por um trompete onipresente que atravessa quase todas as dez faixas e favorecido pelos vocais de Ruby Wood, o Submotion Orchestra fez um disco de estréia apurado e minucioso, mas com um resultado final cool e extremamente prazeroso de ouvir.

"Suffer Not": tudo no capricho.




Thursday, October 13, 2011

Ladrões de Casaca


Qual é o habitat do Thievery Corporation em 2011? Coletâneas chill out? DJ sets? Apresentações em mini-festivais alternativos? Provavelmente, um pouco de cada. E pra reforçar o repertório, mais um álbum espetacular.


Culture Of Fear saiu no final de Junho e mantém o padrão estratosférico das produções da dupla americana Eric Hilton e Rob Garza. O mix de reggae, lounge music e acid jazz continua tão elegante neste sexto álbum da dupla quanto os ternos bem alinhados que eles vestem. A diversidade dos convidados que participam do disco reflete diretamente no som: são sete vocalistas e dez músicos explorando as possibilidades dos encontros musicais do primeiro com o terceiro mundo, capitaneados pela produção impecável de Hilton e Garza. Encaixar Culture Of Fear num rótulo é impossível - embora o álbum esteja mais ligado ao dub do que nunca: há uma profusão de ecos, efeitos, burburinhos à Lee Perry (ouça o trip-hop "Is It Over?") e baixos absurdos por todo o disco. De todas as vozes que aparecem nas treze faixas, a que mais me instigou foi a da californiana Lou Lou Ghelichkhani. Ela aparece doce e quase sussurrando entre paisagens desenhadas por pianos elétricos e percussão na onírica "Where It All Starts", cantando numa língua incompreensível conduzida pela escaleta de Jeff Franca na bossa espacial "Safar (The Journey)" e imersa no groove sexy e lento de "Take My Soul". Orgânico e visceral, eletrônico e sofisticado: seja qual for a sua praia, Culture Of Fear é um disco pra sonhar de olhos bem abertos.

"Is It Over?": uma trip a ser conferida no discaço do Thievery Corporation.